A sétima edição do Barbante apresentou o tema Moda e Autoria. O debate contou com a presença do estilista João Pimenta e de Cristiano Bronzatto, diretor criativo da Louloux.  A mediação ficou a cargo de Eduardo Motta, da Radar consultoria.

João e Cristiano, reconhecidos pelas suas criações, foram enfáticos ao concordar que veem sua produção como forma de expressão, ou seja: tratam seus produtos como suporte para suas ideias.  João Pimenta ressaltou que é necessário um processo de autoconhecimento, já que considera seu trabalho reflexo de suas experiências: “só posso oferecer aquilo que tenho”, conclui. Na sua origem de São Sebastião do Paraiso, interior de Minas Gerais, o estilista diz ter convivido por muito tempo na tensão entre rico e pobre, masculino e feminino. Imerso nessa cultura, percebeu a importância de suas referências e passou a incorporá-las nas coleções.

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Já para Cristiano Bronzatto, a criatividade exige liberdade. Contou um pouco do seu processo de criação espontânea e criticou metodologias que limitam ou mesmo pautam o ímpeto criativo. Para o sapateiro (como ele mesmo se define), a autoria deve ter espaço para florescer, não sendo regida pela cópia. Cristiano comentou, ainda, sobre a importância da criação de produtos não comerciais, aqueles que são conceituais e trazem uma estética mais ousada ou que servem de inovação para o mercado, mas que talvez não sejam sucesso de vendas. Afirmou ele que  é importante que a equipe criativa, ou o designer, se permitam errar: “só com o erro é possível trazer algo novo”, destacou.

Motta esquentou o debate questionando os demais sobre, como seria possível  fomentar mais identidade na produção da grande indústria. Cristiano Bronzatto disse ver um desafio. Para o diretor criativo as grandes empresas não são humanas e, por isso, se afastam de uma moda mais autoral. Para ele, as iniciativas independentes e marcas menores possuem a vantagem de serem mais autênticas. João Pimenta fez o contraponto de que as transformações no modelo da grande indústria não devem ser radicais, mas por meio de pequenos laboratórios criativos que podem ser implementados na própria empresa, que permitam a experimentação; assim, atuariam lentamente propondo novos produtos e formas de criação, oxigenando os processos já estabelecidos na empresa.

Outra questão levantada durante o bate-papo foi a melhor maneira de colocar no mercado produtos mais autorais. Cristiano relatou o esforço que faz constantemente para manter a Louloux. Tendo quebrado em 2010, ele entendeu que a empresa deveria se afastar de formatos de venda convencionais; assim, e por meio de feiras, e-commerce e lojas temporárias foi capaz de se reinventar e manter o negócio saudável. João Pimenta foi bem franco ao dizer que dependeu de outras iniciativas para manter sua marca: fez figurinos, trajes sob medida e outros trabalhos comissionados, para então chegar no momento de ter seu trabalho e seu nome reconhecidos no cenário de moda brasileira. O estilista ressaltou, também, a importância da construção de espaços que incentivem e apresentem a moda autoral, como é o caso da Pandorga, mas que é ainda iniciativa isolada.

João Pimenta também despejou seu otimismo em relação ao consumo de moda autoral. O estilista enxerga uma tomada de consciência de todos em relação ao valor das coisas, do bom design, de matérias primas de qualidade e de empresas e produtos que carregam verdade na sua forma de trabalho e de produção.

Como a proposta do Barbante é incentivar a cena de moda ao promover o debate e a reflexão, o que se viu neste bate-papo foi uma série de caminhos para a criação, comercialização e produção de moda autoral. Ainda existem diversos desafios para aqueles que trabalham tanto em pequena quanto em grande escala, mas já temos uma certeza: é preciso imprimir maior identidade para que o design brasileiro se afaste da padronização e se torne mais relevante.

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Written by Bruna Machado