Foto: Alin Kovacs

Foto: Alin Kovacs

É tudo culpa da superexposição via tecnologias móveis. São elas que ameaçam o sistema, dizem alguns, alegando que as propostas fotografadas nos desfiles, publicadas nas revistas, compartilhadas nas redes sociais e copiadas mundo afora estão chegando velhas às lojas das marcas que deveriam faturar com elas.

Mesmo que a reclamação faça sentido, é bom lembrar que o mundo digital, em parceria com a moda, contribuiu para ensinar essa geração a esperar por gratificação imediata. Como resolver a situação? Pregando o dom da paciência? Proibindo os celulares? Censurando as redes sociais? Processando os copistas? Se nenhuma dessas opções lhe parece realista é porque já foi mesmo provado que elas não o são.

O problema é o ritmo imposto pelo calendário atual, dizem outros. Quem aguenta? Pre-fall, Resort, Verão 01, Verão 02, Alto-verão, Outono, Inverno, Primavera, coleção cápsula, feira disso, daquilo, desfile, lançamento especial, coleção de data comemorativa, dia das mães, fim de ano, linha pet, masculino, feminino, bebê, teen, terceira idade, co-branding. E verão outra vez!  Quem embarcou nessa feliz já está encarando as férias de fim de temporada como coisa de amador.

Mas que raios está acontecendo no Reino da Moda? Porque uma personagem veterana como Diane Von Furstenberg afirma que está tudo errado e um coro endossa cantando que deveria ser feito de outro jeito? Desfilou? Coloca para vender na loja! Ou vende durante o desfile, como estão fazendo marcas que anunciam esta estratégia comercial como profética dos tempos que virão.

François-Henri Pinault, um dos poderosos do setor, contesta e avisa que não vai embarcar: “É a morte do sonho do luxo” diz, defendendo seu lucrativo negócio em tom dramático. Encorpa a defesa dele a fala de Ralph Toledano, que representa a não menos poderosa Federação Francesa dos Criadores de Moda, e daqueles que dizem que isso de vender na hora é a pedra final no túmulo da moda como conhecemos. Mesmo que o façam por outras razões. Ver agora e comprar agora, o see now, buy now, como a imprensa global apelidou a proposta, seria de fato o triunfo dos conglomerados da moda rápida e barata do tipo custe-a-quem-custar-doa–a-quem-doer-todo-mundo-vai-comprar-e-usar-igual.

Se a sua visão de moda ainda envolve a inclinação para sutilezas e significados associados à roupa, talvez seja hora de mudar de ramo, ou rumo, é o que professa esta corrente radical. Vem aí a morte definitiva do designer de moda, anunciam alguns. E emendam: a medida pode enterrar o que resta de criativo na área.  Afinal de contas, para que experimentar novas formas se a roupa vai estar destinada apenas ao toma lá dá cá do mercado imediato? Ao jogo entre atores tão grandes que não mais os conheceremos pelo nome ou estilo, mas pelo preço e facilidade de acesso. Quem sabe nosso relacionamento com a moda será transferido para as experiências de compra? Ou por outras lateralidades dissociadas da ideia de moda como um vocabulário formal de roupas que poderiam funcionar como representações dos nossos muitos eus?

Os temas a respeito da moda ficaram complexos e não foi de repente. Questiona-se o calendário há algum tempo e também a propriedade dos formatos de apresentação. Discute-se também como este sistema ajustado à forma que tem no século XIX se encaixa em nossas vidas hoje. O que é que ele ainda tem para oferecer?

No momento, são muitas perguntas no ar e tantas respostas quanto interesses em jogo. A antiga coesão, que já não funcionava há um bom tempo, está se esfacelando em público. E uma erosão de bases, deste vulto, não tem como não chamar de crise.

“A situação vai piorar antes de melhorar”.  A opinião realista é de Ken Downing, vice-presidente e diretor de moda da loja de departamentos americana Neiman Marcus.

O que estamos admitindo é que o que chamávamos de sistema da moda abrigava uma variedade tão grande de formatos e escalas de negócio, com propósitos, exigências e resultados tão distintos, que ficou difícil mantê-lo colado como se fosse uma coisa só. O que explicitou essa diversidade e revirou de vez a antiga ordem foi a chegada do fast fashion. Esta revolução na forma de produzir roupas e de levá-la ao mercado sem dar bola para as estações, atenta ao fluxo direto de interesses do público e com uma escala produtiva sem precedentes deu às roupas uma configuração de commodities tão radical que fez o advento do prêt-à-porter nos anos 40/50 parecer brincadeira de criança.

O novo sistema transformou o processo criativo em algo contínuo. Em vez de grandes lotes de um mesmo produto, partidas menores escoadas rapidamente em cadeia pulverizada de distribuição. Com marketing eficiente e materialização rápida de desejos de moda, o fast fashion ainda adicionou à roupa de massa algo do imponderável e criativo que, supostamente, era atributo de outros sistemas/marcas entregar, mas que eles demoravam a fazê-lo.

Esta não é uma história tão retilínea. Parte do fast fashion global cresce aproveitando-se do capital criativo disseminado por designers autorais e por marcas nacionais e de luxo, copiando e adaptando direcionamentos de gosto investigados por estes atores.  Sem falar nos inevitáveis problemas sociais e ambientais gerados quando se produz a preço tão baixo, tão rápido e em tamanha quantidade. Entretanto, para o bem ou para o mal – e o que define uma condição ou outra é cada caso em particular, e não o sistema em si – como força de transformação da história da moda o fast fashion é o que se pode chamar de dado incontestável.

Mesmo considerando suas variáveis mais duvidosas, provavelmente é um exagero imaginar que no futuro seremos vigiados por adeptos fanáticos de uma seita normcore, que teremos que traficar roupas criativas no mercado negro para usá-las às escondidas. Contudo, quem minimiza o impacto desse sistema de se fazer moda sobre o que ela significou até recentemente, não está enxergando o que se passa ou tem interesse em não ver. O impacto da moda rápida sobre as conformações e tradições de trabalho – o criativo incluído- é igualmente enorme. Mas este é outro assunto.

Com a chegada do fast fashion, toda configuração de maneiras de projetar, produzir, vender e divulgar moda foi afetada de alguma forma e os outros sistemas precisaram rever suas práticas. Uma estratégia comum foi acelerar os processos. (As tais coleções e linhas disso e daquilo enxertadas entre as antigas sazonais.) A medida deu sobrevida a vários negócios nas duas últimas décadas, mas o custo e o número de baixas hoje faz pensar é no que é que deu errado. Muitos profissionais do ramo disseram basta e decidiram rever tudo, da vida à profissão. Marcas abandonaram semanas de moda para tentar outra coisa. Parte do público simplesmente cansou da brincadeira. Estava aberto o caminho para conceitos como slow fashionlowsumerism e para a celebração de estilos que são na verdade estilo nenhum. O crescente desinteresse pela moda, detectado entre as novas gerações, fez soar de vez o alarme.

ESTA É, MAIS OU MENOS, A HISTÓRIA DAQUELES QUE ESTÃO SENDO EJETADOS PARA FORA DO SISTEMA.

Voltando aos dilemas do grande circuito de marcas, e de quem luta por permanecer nele, proibir o uso da câmera do celular, desfilar uma coleção e esperar dela um bom desempenho seis meses depois pode ser apego ao passado ou desespero de quem não esta sabendo lidar com as novas regras. Por outro lado, esta não é uma questão tão simples e o jogo da moda rápida  não é inteiramente adaptável para todos.

EM MUITOS DOS SEUS ASPECTOS A MODA SE TRANSFORMOU, VAI MUDANDO DE MÃOS E ACELERA RUMO A UMA ERA DE MEGA NEGÓCIOS CONTROLADOS POR POUCOS E GRANDES.

Talvez, enquanto uns e outros se dividem entre reformistas e conservadores, entre vilões e heróis, o drama verdadeiro esteja além daqueles de circunstância. Talvez as respostas estejam ainda enterradas muito fundas para sabermos quais elas são.  Ou disfarçadas pelas defesas dos pontos de vista dos interessados.

Como já se passou tantas vezes (e hoje é fácil de ver, porque virou história) a moda pode estar em vias de ser outra coisa, de tomar novo sentido. Quem sabe estamos presenciando o fim de uma era na moda cuja transformação simbólica poderia ser representada pela morte recente do ídolo pop que melhor a encarnou, no auge da sua conformação de viabilizar fantasias e identidades? Ou ainda, trazendo para perto, pelo triste anuncio que Herchcovitch vai deixar a direção da sua marca?

O sistema está enfermo, e não apenas rachado entre marcas adeptas do see now, buy now e entre marcas de luxo que acreditam que o cliente entende o hiato de seis meses entre desfile e loja. Enquanto estes dois lados das marcas internacionais desfiam seus discursos e defendem soluções adequadas às suas realidades, para outros que vivem nas laterais deste sistema (nós brasileiros inclusive) o problema é descobrir como continuar praticando sua visão de moda e de negócios e sobreviver. É identificar que partes dos dilemas realmente nos pertence.

É utópico acreditar que grandes, médias e pequenas marcas nacionais irão reinventar seus formatos, rever seus discursos, seu tempo de exibição e irão sobreviver? Que o criador de moda irá continuar no jogo? É inadequado perguntar se ainda existe espaço para marcas conduzidas por quem goste de moda, conheça sua história e apresente alternativas para sua evolução? É permitido sugerir que a discussão não deveria ser apenas sobre “como era melhor no passado!”, nem exclusivamente sobre economia e como medir e influenciar o gosto do consumidor. Tá valendo considerar que, caso ela se restrinja a estes aspectos, aí sim, vai ser possível dizer que algo apodrece no Reino. Que alguma coisa foi definitivamente desperdiçada nesse longo processo e que a moda do futuro vai ser mesmo só aquela vendida pela Amazon.

Maior diversidade de ideias, por favor!

 

Texto publicado em: http://www.radarconsultoria.com/blog/2016/02/crise-no-sistema-da-moda-e-drama-historico/

Ramon Steffen
Written by Ramon Steffen